Lado Bê

Lado Bê: Debret e a arrogância de um racista

Você sabe quem foi Debret? Jean Baptiste Debret foi um pintor francês que integrou a Missão Artística Francesa e foi responsável pela criação da Academia Imperial de Belas Artes. De volta à França, pôs em prática todo seu etnocentrismo e publicou a obra Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, onde retratava suas impressões sobre o clima, a natureza, os costumes e a sociedade brasileira do séc XIX. Esse seria o breve currículo do artista, mas o curioso é que quase 200 anos depois, se Debret estivesse vivo e quisesse, nesse exato momento poderia abrir o linkedin e adicionar mais uma competência: Álibi de Racistas.

Em maio desse ano, depois de entrar na fila para pagar e perceber que havia esquecido um produto (só pra constar, foi no mercado Zona Sul do Leblon), uma mulher branca pediu – ordenou – que um funcionário negro fosse até a prateleira e buscasse o produto que ela queria. Esse, que por sorte reconhece que o ano que estamos é o de 2016, se negou. A partir daí, frases como “Volta pra sua senzala” e “Seu lugar é no quilombo” foram ditas por ela sem a menor vergonha e com a total certeza da impunidade. Ao ser questionada pela imprensa sobre o motivo daquilo tudo – RACISMO, ERA O MOTIVO, SENHOR JORNALISTA -, justificou que se tratava de uma referência a obra de Debret.

Na última sexta-feira, 14/10, a grife de moda feminina Maria Filó, resolveu lançar uma estampa com desenhos de mulheres negras servindo mulheres brancas no período colonial. Depois de uma enxurrada de críticas, resolveram fazer aquilo que toda marca que faz merda faz: soltaram um comunicado online, justificando que a estampa se representava uma homenagem a Debret. Dá pra imaginar todos(as) os(as) seus(suas) estilistas e diretores(as) brancos(as) reunidos em uma mesa no Jardim Paulista, bairro nobre de São Paulo, definindo qual argumento usar para “dar um basta nesse mimimi da internet” enquanto algum funcionário ou alguma funcionária negro/a entra para servir o café.

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Imagem: Google.com

Essas duas histórias mostram que dentro dessa “elite cultural” branca está presente não só o racismo, mas também uma arrogância sem tamanho. Ao citar Debret para justificar suas atitudes racistas, tanto a marca quanto a mulher do primeiro caso dizem ser capazes de conhecer a obra do pintor, enquanto uma pessoa negra em posição social desprivilegiada, não. Ambos procuram justificar dessa forma porque, já que o outro (o funcionário ou todos os negros que se indignaram com a estampa) não conhece, acaba-se desqualificando a indignação. Tudo o que podemos tirar como lição dessas duas histórias é que há uma corrente muito forte no processo de exclusão. Dessa vez através da arte, porque da moda… essa já vestiu o seu melhor manequim excludente tamanho 36.

Eu tô cansado.

Link do caso 1: http://glo.bo/2dOXg3u

Link do caso 2: http://bit.ly/2dOYMTc

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1 Comment

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    Mônica Marques
    31 de dezembro de 2016 at 04:51

    Que matéria bem escrita e que ideia genial da Maria Filó. Tão de parabéns.

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