Lado Bê

Lado Bê: A colherada de açúcar no remédio amargo

Se você debate ou acompanha discussões sobre o racismo, provavelmente sabe que, na busca por seguir defendendo suas posições, muitas pessoas insistem em usar argumentos que são repetidos geração após geração e que geralmente são usados por alguém que não acredita (ou prefere ignorar) que ainda existam problemas raciais por aqui. Normalmente esses argumentos funcionam como aquilo que chamo de “colherada de açúcar no remédio amargo”.

Faz muito tempo que escolhi não tomar remédio com a frequência que tomava (a cada resfriado, por exemplo), mas me lembro muito bem que quando era criança e precisava tomar algum medicamento de gosto amargo, meus pais geralmente colocavam uma pequena colherada de açúcar para que ele ficasse doce e assim eu parasse de encher o saco pudesse não sentir o gosto verdadeiro. Acontece que se você parar pra pensar, é exatamente dessa forma que muita gente trata os problemas raciais por aqui! “Não é uma questão de raça, é de classe”; “Não sou racista, meu melhor amigo é negro”; “É difícil falar que isso é racismo, o ser humano é assim”; “As pessoas precisam parar de se vitimizar, hoje em dia tudo é racismo”; “Falei com meu amigo que é negro e ele não se importa”; “Eu nem ligo para cor, todo mundo é igual”… Particularmente, salvo em alguns casos, acredito que as pessoas realmente façam isso por dois motivos: insegurança e cansaço.

No caso da insegurança, é por não serem capazes de assumir que fazem parte de um sistema excludente e que concede privilégios, sim, a determinados e raríssimos grupos. E admitir qualquer fraqueza é sempre difícil. Já sobre o cansaço, é simplesmente por se esforçar para ignorar um tema há pelo menos 200 anos. Convenhamos, é muito tempo pra se fazer qualquer tipo de esforço! É preciso pensar no seguinte: se quem não faz parte da parcela oprimida já está cansado, imagine quem sofreu e vai continuar sofrendo por muito mais tempo. Dessa forma, usando essas e outras variações de argumentos, as pessoas simplesmente se sentem melhores e sem o fardo da culpa que, querendo ou não, carregam com elas.

Chegou a hora (passou da hora) de entrarmos na questão de maneira mais profunda, sem rodeios. Se você usou ou usa alguma dessas frases, reflita o máximo que puder antes. E se a sua ideia é suavizar o tema para que assim fique mais fácil de engolir, esqueça! Encare e fale sobre o racismo sem a colherada de açúcar, até porque, já dizia a minha avó: quando o remédio é amargo o efeito é mais rápido.

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