Lado Bê

Lado Bê: Dunga afrodescendente?

Foto: Nelson Almeida / AFP

Foto: Nelson Almeida / AFP

“Eu até acho que eu sou afrodescendente, de tanto que apanhei e gosto de apanhar, os caras olham pra mim e falam: vamô bater nesse aí!”

Levei aproximadamente três dias para escrever sobre isso. Primeiro por estar tentando digerir a frase e depois pela minha incrível habilidade de procrastinação. No processo de digestão da informação, levei muito tempo para entender se ao fazer tal afirmação, Dunga quis expor todo o seu racismo ou simplesmente fazer uma analogia burra. Juntando um pensamento daqui com uma reflexão dali, cheguei a surreal conclusão (Me perdoem o trocadilho, não resisti): Dunga fez, simplesmente, uma analogia burra e racista.

Em primeiro lugar, já sabemos que inteligência não é o forte do querido treinador. Fosse o contrário, não teríamos uma zaga com Tiago Silva e/ou David Luiz. Acontece que em uma tentativa clara de reafirmar toda a sua incapacidade mental, como se necessário fosse, Dunga nos brinda ao fazer duas afirmações importantes e ignorantes: negros gostaram e gostam de apanhar. Ora, acredito que seja completamente desnecessário dizer que cada um dos negros que aqui desembarcaram, com muita sorte vivos, apanhavam por não concordar com o regime que lhes era imposto. Sobre ainda gostar de apanhar, a afirmação continua errada, ou então mostrem-me apenas um e esse texto sai do ar. É exatamente aí que entra o racismo de Dunga! Homem, branco, meia idade e de classe média, nosso “treineiro” é incapaz de enxergar um contexto histórico problemático e apenas repete aquilo que há anos vem se propagando dia após dia através de milhares de falsas afirmações (“Só apanhavam por que eram preguiçosos”, “Preguiçoso desse jeito, se você fosse escravo, iria viver no tronco”…) e piadinhas.

O mais assustador e, pessoalmente, o que mais me deixa desconfortável, é o fato de que no auge da sua ignorância, há um quê de meia verdade no que disse o mais jovem dos sete anões! Em primeiro porque qualquer pessoa com um pouquinho de conhecimento histórico sabe que negros apanharam ao longo desses 500 anos. Mas há ainda uma análise mais profunda. Ao afirmar “os caras olham pra mim e falam: vamô bater nesse aí!”, Dunga não só diz uma verdade, como faz um retrato daquilo que acontece diariamente. Se não fisicamente – o que não é o caso, pois sim, acontece também -, a cada vez que alguém esconde a bolsa porque um negro entrou no metrô, a cada vez que o segurança do supermercado resolve seguir um negro que entrou pra fazer compras, a cada vez que alguém faz alguma piada racista, a cada vez que um policial decide abordar um negro por considerá-lo suspeito, a sociedade (“os caras”) diz: vamô bater nesse aí! E bate! Quanto ao Dunga?! Tão pequeno quanto o apelido que carrega.

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