Lado Bê

Lado Bê: Racismo – com quem eu devo brigar primeiro?*

61b08148bb99d5711a824049744d743aFoto: Tumblr

Em 1996, no primário, éramos dois, o Jefferson e eu. Jefferson mais velho, com língua presa e sempre com lanches mais atrativos. Eu, magrelo, com lanches menos atrativos, porém mais saudáveis, um ano mais novo, formava com ele a dupla preferida da professora Deíla, os melhores alunos. Eis a surpresa: os dois negros. Não sei bem como foi a infância do Jefferson, que aliás nunca mais tive notícia, mas a minha foi incrível, com brincadeiras, festas, irmãos, primos e amigos. Incrível de verdade, mesmo com as incontáveis vezes em que ouvi frases do tipo: “senta direito, porque depois vai na casa dos brancos e não vai sentar assim”. Foi nessa mesma época em que eu tive o primeiro contato com os apelidos “buiu”, “tizil”, “neguinho”, dentre outros.

Em 1998, já no Ensino Fundamental, estudando em um colégio público, desde o início da inocente e cruel fase da pré adolescência, momento onde surgem na mesma proporção paqueras e espinhas, nunca vi uma menina ou menino negro ser eleito(a) “o(a) mais bonito(a) da sala”. Nessa mesma escola, vi amigos negros disputando entre si para ver quem tinha a pele mais clara, partindo de um deles a frase: “Eu não sou preto, eu sou chocolate”. Até porque, ser chamado ou chamar alguém de preto soava como uma ofensa das mais graves. Me lembro de muitas outras situações, mas não me lembro bem de ter tido algum contato com a história negra do país, fosse a disciplina qual fosse.

Em 2003 cheguei ao ensino médio – “um ano adiantado”, meu ego manda dizer. Estudando em um colégio meio público meio privado, dificilmente via alguma menina negra com os cabelos cacheados. Juro! Quase todas elas vinham acompanhadas de seus belos – e lisos! – cabelos. Com relação aos homens, era mais gritante a percepção de que boa parte dos que ali estavam seguiam um padrão estético imposto, já que todos (eu inclusive!) mantinham o cabelo raspado com máquina, acompanhados (mal acompanhados) da frase: “Cabelo ruim é assim, tem que raspar!”. Foi nessa mesma escola que, seguindo o padrão das anteriores, meus colegas de classe e eu nunca tivemos a possibilidade de estudar com maior profundidade a influência da cultura africana no país, no máximo capoeira, escravidão e Zumbi dos Palmares. Em contrapartida, tive acesso a história da colonização e posteriormente imigração européia, tão ricas em detalhes.

Na faculdade (privada!), quando entrei em uma turma de aproximadamente 50 alunos, não lembro bem, mas se 5% dos alunos fossem negros, seria um número arredondado para cima. Foi lá que vi um acalorado debate sobre cotas para negros ingressarem na universidade, com 80% da turma – incluindo negros! – sendo contra tal medida, “já que era uma medida proteccionista, que beneficiava o negro e prejudicava as outras raças”.

Em 2015, agora em um período sabático (o que algumas pessoas mais próximas insistem em chamar de “eufemismo para desemprego”), que eu preferi sair de um grupo de amigos do whats app depois de uma série de piadas racistas. Foi nesse mesmo ano que vi humoristas (de qualidade duvidosíssima) travestindo suas piadas racistas e preconceituosas de pura e simples “liberdade de expressão”, justificando que é preciso entender que não se deve haver um “limite para o humor”. Seguindo com as observações de 2015, acabo de perceber que na novela que começou a ser transmitida no horário nobre há aproximadamente um mês, dos seis personagens negros que contei (até agora), todos eles integram o núcleo pobre ou, no máximo, em ascensão social. Claro, em 2015 também vi uma estatística apontando para o espantoso número: 77% dos jovens mortos no Brasil são negros.

Posso dizer que 26 anos após ser inserido ao fantástico mundo do preconceito racial no Brasil, sofrendo e combatendo, hoje percebo que talvez toda essa luta contra a discriminação foi com o adversário que, se não é o errado, é inapropriado para o momento. Em primeiro lugar, sejamos francos, vivemos em uma sociedade branca. Sim, sem rodeios, é preciso entender que o simples fato de estarmos em um país como o Brasil e ainda discutindo sobre cotas raciais em universidades, limite do humor e ___________ (insira no espaço em branco qualquer um dos casos citados acima), nos mostra o quanto a sociedade é moldada para privilegiar uns e excluir outros. Quando um grupo de estudantes negros entra em uma universidade privada (uma sala de 100 alunos, sendo um deles negro e não cotista) dispostos a abrir um debate a respeito do processo de inclusão social do negro e é confrontado por alunos que preferem ter aula de cálculo, acusando-os de “vitimismo”, esse fato é respaldado. Quando a polícia de São Paulo institucionaliza (sim, na própria cartilha) que negros e pardos são suspeitos e devem ser abordados em primeira ação, essa opinião é respaldada. Cada um desses fatos, e tantos outros, me fazem acreditar que até agora fiz parte de um processo tão cíclico como uma pista de autorama. É preciso entender que talvez o processo de atuação principal deva começar a inserir e mostrar para o negro cada centímetro dessa realidade. O quão mais impactante deve ser ensinar para uma criança negra a importância de se afrobetizar a educação desse país e mostrar pra ela que a cultura africana é importante ? O quão mais impactante é mostrar para uma menina negra que por mais que o cabelo enrolado não faça parte do padrão estético vendido, ele continua sendo lindo e representante de uma etnia que participou ativamente do processo de construção social desse país? O quão mais impactante será mostrar para um adolescente negro que cotas raciais fazem parte de um processo de equidade e não simplesmente um “atestado de diminuição intelectual” e/ou “racismo reverso”? Talvez cada uma dessas atitudes cause um impacto muito maior do que “roubar a aula de cálculo” de pessoas que simplesmente não se importam e “nem estão dispostas” a se importar.

Cada uma dessas linhas foi escrita – por mais difícil que seja – sem um pingo de ressentimento de todas essas situações vividas nesses 26 anos. Cada uma dessas linhas tenta levantar um debate sobre a briga ser com o pseudo humorista branco, que filosofa sobre o limite do humor enquanto faz mais uma piada racista ou com os dois moleques que disputam para saber quem tem a pele mais clara. Com alunos de uma turma de uma universidade privada, ou com uma menina que associe o seu cabelo cacheado ao “cabelo ruim”. Na verdade são só algumas dúvidas de alguém que já está cansado de explicar que, para a sociedade o racismo é como aquela roupa velha que a gente gosta muito: fica com ele ali guardado, incomoda, mas não faz a menor questão de descartar.

P.S.: O autor desse texto votou na Deise, a menina de cabelos lisos, na eleição da “menina mais bonita” da turma – que aliás, continua muito bonita. Tão bonita quanto a minha irmã, a menina – com seus cabelos cacheados – mais bonita que eu já vi na vida.

P.S2.: O autor desse texto usou o termo brigar, mas mantém sua doutrina pacifista e não estimula qualquer tipo de violência física. Talvez.

*Por Bernado Feitosa – Colunista do Pretinho Nada Básico

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